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Os sapatos azuis da poodle branca
Raul estava infeliz, mais infeliz do que jamais estivera. Talvez já estivesse assim há muito tempo mas só agora se dava conta do tamanho de sua infelicidade. Tentou não pensar. Concentrou-se no trabalho mas a tristeza de se saber tão infeliz só aumentou. Tentou desabafar, mas se sentiu ridículo. Então chorou. Por tudo que não era e achava que deveria ser; por tudo que não tinha e imaginava que devesse possuir.
Eram quase 8h da noite, quando deixou o escritório. Mais uma vez aborrecido. O que não significava exatamente uma novidade nos últimos meses. Caminhava com passos curtos e rápidos sob a garoa fina. A rua estava cheia de pessoas, sons e cheiros mas nada disso lhe chamava a atenção ou interessava. Olhava fixo para os seus pés como se uma imã neles atraísse magneticamente sua visão.
A mancha branca atravessou seu caminho tão bruscamente que foi obrigado a uma freada para não tropeçar no que quer que fosse aquilo. O susto interrompeu não só o ritmo dos seus passos mas também seus sombrios pensamentos. Foram precisos alguns segundos para que conseguisse finalmente perceber que a intrusa mancha era na verdade uma saltitante poodle branca. Feliz, apesar de calçar loucos sapatos azuis. Depois de inspecionar minuciosamente os sapatos de Raul, a cachorrinha seguiu adiante. Saltitante, o bichinho, vez ou outra, olhava para trás como que a conferir se na outra ponta da coleira que prendia seu frágil pescoço ainda se encontrava sua dona, provavelmente a infeliz responsável pelos sapatos azuis.
Raul ficou imóvel por um tempo antes de continuar seu caminho, dessa vez com passos bem mais lentos e pensamentos muito mais claros. Não deveriam colocar sapatos em cães. Nem perfume. O ser humano deveria ser muito mais parecido com o cão e não o contrário. Desde esse dia, Raul nunca foi mais foi o mesmo.
Primeiro começou a farejar as pessoas. Foi um escândalo, no escritório. E quando era chamado para um chopinho no final da tarde, abanava-se todo para os colegas de baia. Seu comportamento causava curiosidade e medo nos companheiros. Tornou-se uma espécie de atração no escritório. Mas quando decidiu rosnar para o chefe, perdeu o emprego. Arrumou sua mesa, despediu-se dos colegas e, antes de deixar o escritório, fez xixi no pé da cadeira que ocupou durante tantos anos. No térreo, passou lentamente pela porta e, sem olhar para trás, caminhou sentindo o vento desalinhar os contornos de sua nova vida.
Escrito por Erika Riedel às 18h17
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Resumindo
"O mundo como está não é suportável. Por conseguinte, preciso da lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa que seja loucura, talvez, mas que não pertença a este mundo." Albert Camus, Calígula
Escrito por Erika Riedel às 17h28
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Alta costura

Fui conferir PRÊT-À-PORTER – COLETÂNEA 1. São três cenas com dramaturgia e direção dos próprios intérpretes. E, claro, a coordenação é do Antunes Filho. Gostei muito do que vi. Especialmente das duas primeiras cenas. Em A Filha do Senador, um texto mais dramático e o único inédito deste projeto, me chama a atenção a densa interpretação de Anna Cecilia Junqueira e de Marcelo Szpektor (foto). Tensão na medida exata e uma história interessante muito bem contada. Na segunda, A Garota da Internet, destaco, além do desempenho dos atores, Arieta Corrêa e Marcelo Szpektor, a inteligência de fazer graça sem cair no cretinismo. A última, Ponto sem Retorno, traz Emerson Danesi e Marcelo Szpektor numa narrativa muito longa cujo desfecho é anunciado (não sei se intencionalmente) logo em seu início. Na minha opnião, a menos atraente das partes, apesar do talento dos intérpretes. Mas, como sempre, e graças a Deus, há controvérsias. E este espaço está aberto a elas. A montagem fica em cartaz até 24 de junho, sempre às terças-feiras, às 20 horas, na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista.
Escrito por Erika Riedel às 15h24
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Mais Direções

Por enquanto, só vou dizer que sou fã do Samir e que a
peça é simplesmente uma obra-prima.
Escrito por Erika Riedel às 18h09
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Duas para lamentar e uma para comemorar
Crowne Plaza e Teatrix fecham as portas. Lamento. Perde o público, perdem os artistas, perdemos todos. O primeiro vai ser vendido junto com o hotel que o abriga. No segundo, a questão é que alguns sócios querem outro tipo de público. Triste de qualquer modo. Mas há esperança. Sempre há, pra quem ama o teatro. A Funarte passa a administrar o TBC. Não sei se administrar é o termo correto, mas o que importa é que finalmente alguém se deu conta do absurdo desrespeito sofrido por esse patrimônio da nossa cultura. Será que é possível restaurar tanta glória? Sou otimista, vou aguardar boas novas. E os novos palcos, que virão, sempre virão. A despeito da ignorância de algumas pessoas.
Escrito por Erika Riedel às 17h58
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Cultura com prazer
Acabo de descobrir que meu querido João Luiz Sampaio repaginou seu blog,. Desde o último sábado, o Para falar de Música se transformou em http://joaoluizsampaio.wordpress.com/. O nome mudou mas a qualidade do texto e da informação continua ótima. Pra quem não sabe, o Jonnhy entende tudo e mais alguma coisa de música erudita e de ópera. E fala disso com uma paixão tão grande que empolga até que nunca foi a um concerto na vida. E ele promete que, dessa vez, vai esticar o papo comentando outras coisinhas mais. Estou esperando... E recomendo visitas regulares. Nunca sei se o link no meio do texto vai funcionar, então, por segurança, tá linkado aí ao lado também.
Escrito por Erika Riedel às 21h58
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